Entrevista a Elga Fontes - Quem Me Lera



A Elga Fontes foi a primeira Bookstagrammer que conheci. Foi ela também que me deu a conhecer esta comunidade incrível que inundou o Instagram de livros e a quem muito agradeço pela disponibilidade em esclarecer algumas dúvidas.


Esta semana, tive a oportunidade de a entrevistar sobre o seu trabalho e o panorama do mercado literário em Portugal. Uma entrevista que termina com uma importante reflexão.



1. Estudante de Línguas, Literaturas e Culturas, revisora de textos, escritora ocasional, Blogger Literária e Bookstagrammer. Como é que tudo isto começou?

Sinceramente, não te sei dizer. Todos os meus projectos são manifestações daquilo que me representa enquanto pessoa. Gosto de ler, gosto de escrever e gosto de estudar a Língua. À medida que fui descobrindo essas paixões, fui agindo conforme – candidatei-me à licenciatura, comecei a treinar a escrita, tirei um curso de Revisão de Texto, criei o Quem Me Lera… no fundo são coisas que foram acontecendo quase sem eu dar por isso.

2. Por falar no “Quem Me Lera”... O que é que te fez passar de uma simples leitora para alguém com uma voz ativa no mundo da literatura?

Lembro-me que o primeiro bookstagram que encontrei foi totalmente por acaso, e assim que descobri que este “mundo” existia senti-me muito como a Alice no País das Maravilhas. Quer dizer, estava eu a viver uma vida “solitária”, com muitos poucos amigos com quem pudesse discutir as minhas leituras, e do nada aparece-me um coelho branco com um relógio que me guia até uma comunidade que gravita em torno do amor pela leitura. Depois criei a minha página por isso mesmo, queria poder falar sobre os livros que lia, desabafar com pessoas que sentiam o mesmo que eu, e com o tempo fui-me familiarizando, criei rotinas, aprendi a criar conteúdo e tornei-me mais ambiciosa com o tipo de objectivos que tinha para o Quem Me Lera.

3. Dentro do teu projeto, tens uma rubrica que me chamou a atenção: (L)Itinerário. Fala-nos um pouco sobre isto.

Tive essa ideia depois de ler o Raparigas Como Nós da Helena Magalhães. É uma história que se passa em Portugal, então reconheci muitos dos lugares que ela descrevia e isso deu-me vontade de criar um itinerário onde pudesse refazer todos os passos da protagonista. Na época também já tinha uma viagem programada para Nova Iorque, então tentei fazer o mesmo e resultou muito bem. É, resumidamente, uma tentativa de misturar duas das minhas grandes paixões, a leitura e as viagens.

4. Nesta jornada toda, quais foram os livros que mais te marcaram? Porquê?

É difícil dizer. Talvez o O Sol Também É Uma Estrela da Nicola Yoon, porque foi um daqueles livros que eu li já à espera de não gostar, mas que acabou por se tornar um dos meus favoritos.

5. Qual é, para ti, a melhor parte de viajar através de um livro?

Eu sei que um dos principais intuitos de ler um livro é o poder escapar, mas eu sempre gostei mais dos livros com temáticas que eu poderia facilmente transpor para o mundo real. Acho que, para mim, a melhor parte de viajar através de um livro é o poder regressar e conseguir visualizar todos os aspectos da minha vida onde posso aplicar o que aprendi com a leitura.



6. Para além do teu profundo interesse em literatura, tens uma voz ativa nas causas que mais te movem: feminismo e dignificação da comunidade negra. Que importância tem a literatura na desconstrução do preconceito e de dogmas enraizados na sociedade, na tua opinião?

Uma das questões que mais se reflecte em qualquer tipo de debate que envolva esse tipo de causas sociais é a recusa que as pessoas têm em fundamentar os seus argumentos. Grande parte do que ouço e do que leio baseia-se no “eu penso" e no “eu acredito”, e muito raramente no “eu li” ou no “eu estudei”. E não faz sentido porque há tantos académicos que realmente se dedicam a investigar estes fenómenos, que publicam teses, artigos, obras devidamente sustentadas… A informação está aí, falta é a disposição, e muitas vezes a coragem, para desconstruir as doutrinas que nos acompanharam a vida toda, que fazem parte da nossa cultura, da nossa educação e dos nossos meios sociais. Ler um livro é o primeiro passo para terminar esse ciclo porque significa que houve alguém que teve esta posição quase revolucionária de considerar a hipótese de que, talvez, ainda tenha alguma coisa a aprender.

7. Como Bookstagrammer, o que sentes que podes fazer para incentivar o uso da literatura como “arma” para combater os estigmas que ainda prevalecem na nossa cultura e sociedade?

Definitivamente, falar sobre isso. Quando falo sobre um livro tento sempre abordar mais do que a história em si, faço um esforço para escalar os temas mais relevantes e iniciar diálogos que incitem à reflexão. Acho que uma das maiores influências que um livro pode ter é esse, pôr as pessoas a falar sobre coisas que talvez antes nem lhes passavam pela cabeça, questionar temáticas que antes tomavam por garantidas, ir atrás de referências, procurar informação… é assim que se começa uma revolução.

8. E, relativamente a autores, preferes autores portugueses ou estrangeiros? E porquê?

Não tenho critérios para nacionalidades, prefiro autores com boas histórias, sejam eles de onde forem. Mas claro, se a boa história for de um autor português, melhor ainda.

9. Em relação a autores independentes, qual é a tua opinião? Sentes que têm menos credibilidade do que autores que publicam com uma editora?

Sim, sem dúvida. Não só por parte dos leitores, mas também das grandes distribuidoras, das editoras, dos canais de comunicação e às vezes até do próprio autor. É difícil dar credibilidade a um trabalho quando parece que mais ninguém acredita nele e isso é o que, muitas vezes, afasta as pessoas da literatura nacional, sobretudo se for uma publicação independente, sem qualquer credencial.


10. Qual seria o teu conselho, como revisora de textos, para autores independentes que se queiram lançar no mercado editorial?

Saibam investir no vosso trabalho. Capa, revisão, diagramação (se for o caso) distribuição, marketing… acreditem, escrever o livro é a parte mais fácil do processo. Eu sei que é dispendioso, que não depende só de vocês e que este é um mercado injusto, mas é o vosso projecto que estão a lançar, o vosso legado para a sociedade. É muito fácil distinguir uma obra trabalhada de uma história publicada “às três pancadas”, e se um autor não está disposto a investir na sua obra, por que motivo haverei eu, ou qualquer outra pessoa, de investir na sua leitura?


11. Quão importante é, principalmente no contexto em que vivemos, escolher comprar junto das livrarias independentes?

Pode dizer-se que é uma questão de vida ou de morte porque, neste momento, a existência de muitas dessas livrarias depende disso. Sempre que ouvirem falar da crise no mercado livreiro, pensem que, para os negócios independentes, é cinco vezes pior.

12. Por que motivo as pessoas têm tendência a preferir as grandes distribuidoras, como a FNAC, Bertrand e a Wook? E que papel têm os Bookstagrammers nesta decisão?

A maior parte das vezes porque é tudo o que conhecem, outras porque nem sempre os pequenos negócios se podem dar ao luxo de fazer os descontos a que as grandes distribuidoras nos habituam.

13. Para terminar, uma pergunta importante: qual é o verdadeiro poder de uma boa história?

Uma boa história tem o poder de mudar a tua vida. Faz-te questionar tudo aquilo que julgavas conhecer, deixa-te acordada durante a noite a pensar naquilo que acabaste de ler e na forma como isso vai impactar a tua existência. Acredito que quando uma pessoa lê uma boa história, consegue mudar a sua vida, mas quando muitas pessoas lêem uma boa história, conseguem mudar o mundo.


Saibam mais sobre o Projeto "Quem Me Lera" em:

https://quemmelera.com/

https://www.instagram.com/quemmelera/

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