O que aprendi no primeiro ano como autora independente?



Ontem, a minha bisavó Alzira faria 101 anos.


Porque é que isto interessa? Porque foi ela a minha principal inspiração para escrever o meu primeiro livro para crianças. Um livro que foi lançado há um ano e que me trouxe mais aprendizagens pessoais e profissionais do que, talvez, quatro anos de trabalho.


Hoje, quero partilhar algumas dessas lições convosco.



Por mais que tentes não o fazer, vais errar.


Faz parte, é humano. Com o "Para Onde Vão As Meias Que Desaparecem?", li e reli o livro mais de 30 vezes antes de mandar produzir. Como eu, leram amigos, família e até a própria ilustradora. Ao tentar aperfeiçoar pormenores, fizemos desaparecer uma frase inteira que não iria passar despercebida aos leitores. Ninguém reparou.


Mas eu reparei, quando folheava pela primeira vez o meu livro, finalizado e produzido. Estava no carro e desatei a chorar. Tinha treze caixas com 80 livros com um erro que não iria passar despercebido. E, pior: não era o único.


E isto leva-me ao próximo ponto.



Contratar um revisor é MESMO muito importante.


No meu dia a dia como copywriter, a revisão era um trabalho diário e foi o suficiente para me dar uma sobredose de confiança na minha capacidade de detectar erros, gralhas e incongruências no meu próprio livro. Sobrestimei-me, e esqueci-me da premissa básica da revisão de texto: quanto mais lemos as mesmas palavras, menos reparamos nas gralhas.


Por isso, não podia recomendar mais a Elga Fontes para dar-vos uma ajuda. Para além de ter olho de lince, faz uma verdadeira análise crítica da história com uma franqueza brutal. E podem crer que poupam tempo, dinheiro e ansiedade ao evitar erros tão simples.


No meio disto tudo, aprendi outra coisa muito importante.



De um erro, podem sempre nascer novas ideias.


E foi graças a um erro que o "Para Onde Vão As Meias Que Desaparecem?" ganhou um marcador especial: uma meia de criança, com uma errata e um desafio. Menos um problema, mais uma ideia que todos os meus leitores adoraram e que, hoje, é um fator diferenciador do meu livro.


Neste processo, ideias nunca faltaram. Contudo, há que pô-las em ordem.





Um plano de marketing é TUDO.

Vá, não é tudo. Mas ajuda muito.


Aprendi demasiado tarde que, apesar de ser um livro, deveria tê-lo encarado como uma marca. Afinal, é uma parte da minha marca pessoal. Isto levou-me a ir aprendendo por tentativa-erro. Se por um lado, os erros que cometi foram essenciais para saber o que sei hoje, por outro, podia ter poupado tempo e cansaço ao ter tudo mais definido e organizado.


Assumi durante muito tempo que, por ser o meu livro, o conhecia na sua plenitude. A verdade é que, só quando comecei a fazer o plano de marketing, consegui perceber as suas inúmeras potencialidades. Antes, ficava demasiado focada no facto de termos um mercado limitado às editoras e grandes distribuidoras, numa cultura literária que desvaloriza os autores independentes. Agora, sei que esta edição de autor me dá uma liberdade imensa de explorar novos mercados e aprender cada vez mais.


E estar constantemente aprender é mesmo importante.



A tua formação é o melhor investimento que podes fazer.


Tenhas escolhido publicar o teu livro com uma editora ou apostar numa edição de autor, aquilo que te posso garantir que vai poupar tempo, evitar inúmeros erros e ajudar a tomar decisões mais acertadas é investires em formação.


Aprender com pessoas que adorarias ter como mentores é um verdadeiro atalho para o sucesso. E se puderes não restringir-te a formadores do teu país ou a cursos/workshops apenas direcionados à literatura e o mercado editorial, ainda melhor.


Sobre livros infantis e estratégias de marketing na Amazon, aprendo imenso com o Mr. Jay e com a Laurie Wright. Sobre marketing digital, com criação de sites, estratégias de redes sociais, e-mail marketing e ads (entre muitos outros), o Curso de Marketing Digital do HUB do Marco Gouveia é, de longe, o meu preferido.

No entanto, há algo em que também deves investir.



Pela tua saúde mental, toma o teu tempo e descansa.


O processo de lançar um livro pode ser um autêntico caos. De repente, temos uma centena de livros para autografar e enviar por correio, uma apresentação para organizar, expectativas para gerir (principalmente as nossas) e uma espécie de corrida para ganhar. Se não tivermos sucesso imediato, somos um falhanço - é isto que a ansiedade e a síndrome de impostor nos grita dentro da cabeça.


A par disto, se tiveres um trabalho a full-time, uma casa para tratar e a tua própria vida pessoal para gerir, pode tornar-se numa verdadeira confusão. No meio disto tudo, se tiveres uma pandemia que te impede de ir às escolas - o teu público-alvo principal - fazer a apresentação do teu livro... Olá, exaustão, sensação de fracasso e vontade de desistir.


A maior parte das pessoas não vai compreender porque não estás a fazer tudo o que podia ser feito. "Podias isto", "devias aquilo", "porque é que não fazes o outro?", "tens de aproveitar a oportunidade", "já fizeste x?", etc. São bem intencionadas, querem o nosso bem e nós agradecemos do fundo do coração. Mas é aqui que nos podemos sentir completamente sozinhos.


Porquê? Porque estamos exaustos.


Este ano foi particularmente atípico e mexeu muito com a saúde mental de toda a gente, incluindo a minha. Há uns meses, devido ao trabalho, à pressão do lay-off, à pandemia e a tudo o que tinha para fazer fora do trabalho, cheguei ao ponto de total burnout. Meti baixa médica e, durante essas semanas, não conseguia olhar para o computador nem para o meu próprio livro. Parei absolutamente tudo da minha vida e só agora estou a recuperar, passo a passo e com muita calma.


No entanto, foi num momento destes que descobri aquilo que nunca achei possível.





É possível odiares o teu próprio livro.


Parece contraditório, não é? Como é que se odeia algo que criámos com tanto amor? Como é que já não queremos ver à frente algo que é uma extensão daquilo que somos?


A verdade é que não foi o livro que odiei, foi a montanha-russa de coisas que aconteceram à volta dele e, acima de tudo, à minha volta. O "Para Onde Vão As Meias Que Desaparecem?" ficou encostado durante meses porque eu não estava capaz de olhar para ele com amor e paz. Por dentro, eu não sentia amor e paz - precisava de ajuda e demorei algum tempo a perceber. E ainda mais tempo a pedir.


Quando não estamos bem, aquilo que nos espelha também não vai fazer sentir-nos bem. Durante meses, senti culpa, fracasso, exclusão, que o mundo estava contra mim e que eu não entendia porquê. Porque é que os outros conseguiam e eu não? Porque é que não conseguia chegar a mais pessoas? Porque é que não sinto entusiasmo com os meus projetos? Porque é que não me assumo como uma escritora, se é aquilo que mais amo fazer? Toda uma panóplia de "porquês".



Cuidar de ti deve ser a prioridade. Tudo o resto vem por acréscimo.


Não me canso de repetir isto: cuidar de ti é TÃO importante.

Há dois meses, comecei a fazer psicoterapia. Aprendi a tomar o meu tempo, a cuidar de mim e a aceitar onde estou, no processo de lidar com a depressão - claro que não era só o cansaço mental. Perdi a vergonha de assumir que era isso que me estava a acontecer e perdi o medo de saber que daqui não é sempre a subir. É um processo de altos e baixos, processos e retrocessos. E está tudo bem.


Hoje, celebro uma pequena vitória muito importante: voltar a escrever-vos e contar esta história. Após 1 ano de ter lançado o "Para Onde Vão As Meias Que Desaparecem?", volto a olhar para o meu livro, para a minha família que me inspirou e a sentir com o coração.


O que aprendi nesta viagem totalmente louca é impagável e eu não podia estar mais grata.


Porque um livro nunca é só um livro.

É tudo aquilo que somos.

©2018-2020 by Margarida Porto